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Better Call Saul: O fim sombrio de Chuck e Jimmy (Crítica da terceira temporada)

O carma de Jimmy.

Adorocinema·
Better Call Saul: O fim sombrio de Chuck e Jimmy (Crítica da terceira temporada)

Better Call Saul teve início, em fevereiro de 2015, com um bonito prólogo. A sequência de abertura mostra o protagonista com um novo codinome, Gene (Bob Odenkirk), vivendo uma vida em preto e branco, solitária, de melancolia realçada pelo som do jazz. Pouco confortável com seu bigode, com seu disfarce, Gene reage com medo ao ver um homem suspeito no Cinnabon que gerencia. Sozinho em casa, ele se serve de uma bebida e assiste a vídeos do tempo em que foi Saul Goodman — nostálgico. Por quê?

A triste conclusão da terceira temporada de Better Call Saul responde a essa pergunta. Se a vida de reclusão e a adoção de uma segunda identidade são reflexos dos eventos de Breaking Bad, o protagonista sente saudades de seu passado como Saul Goodman não exatamente pelo sucesso oriundo de seus trambiques. Pelo contrário: a série derivada reforça, a todo momento, a luta de Jimmy McGill para contornar a sua essência e, ao final de muitas confusões, fazer o bem. Assumir a identidade de Saul Goodman foi mais que uma saída financeira ou busca por reconhecimento, mas um refúgio emocional.

A principal tragédia do personagem, portanto, não é o seu encontro com Walter White (Bryan Cranston) e o consequente disfarce no deprimido Gene, e, sim, se transformar em Saul para esquecer Jimmy. Eis o motivo de seu apego por Saul, abrigo que o protege de um passado excruciante. E o mais brilhante em Vince Gilligan e Peter Gould é reinventar um personagem caricato, até chato, com uma narrativa extremamente complexa. Ele é culpado de absolutamente tudo que acontece em sua vida, mesmo quando é vítima — aspecto profundamente humano, universal, tal como a relação conturbada com um membro da família.

Como previsto, a base da terceira temporada é a briga entre os irmãos McGill. Não à toa, o clímax desse conflito representa o ponto alto da série até aqui: o quinto episódio, "Sacanagem" (no original, "Chicanery"). Grandioso desde o prelúdio, o capítulo radicaliza qualidades e ambiguidades em Jimmy, Chuck (Michael McKean), Kim (Rhea Seehorn), Howard (Patrick Fabian), a crítica recorrente ao sistema judicial, a soberba visual da série, sua composição narrativa intricada, as nuances psicológicas… tudo em plena sintonia, em perfeição.

É também nele que McKean justifica a confiança de Gilligan de que ele concorrerá às maiores premiações de 2017. Do ensaio calculado de seu discurso (fisicamente engrandecido pelo plongeé, moralmente questionado pelo desfoque) ao momento em que a presunção de Chuck McGill se desmantela em fragilidade, loucura, e ele (retratado de cima, sentado, diminuído pelo ângulo, julgado pela câmera que o acompanha em close e se distancia em repulsa) surta no tribunal, a atuação é brilhante. O episódio todo é brilhante, talvez o melhor do ano.

As consequências dessa batalha, ruins para ambos, resultam no trauma esperado. A alusão ao clássico A Conversação, de Francis Ford Coppola, confere elegância e angústia ao colapso de Chuck; seu desfecho, a última cena de mais um ano…

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