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Janela de Cinema 2017: Curtas-metragens brasileiros se dividem entre retratar a realidade como ela é ou como poderia ser

Deus é uma mulher negra, a morte é o abraço de um peixe.

Adorocinema·
Janela de Cinema 2017: Curtas-metragens brasileiros se dividem entre retratar a realidade como ela é ou como poderia ser

Após uma primeira sessão de curtas-metragens brasileiros bastante satisfatória, o segundo programa de curtas do X Janela Internacional de Cinema do Recife se mostrou muito mais problemático. Os cinco filmes apostaram em formas variadas de engajamento, com resultados distintos.

O Peixe, de Jonathas de Andrade, tem despertado polêmica desde a sua primeira exibição. O filme retrata dez pescadores diferentes adotando o mesmo procedimento fictício, sugerido pelo diretor: eles pescam um peixe, tiram da água e abraçam o animal enquanto morre, fazendo carícias e apertando-o contra o peito. Um deles arrisca um beijo, enquanto insere o dedo delicadamente nas guelras do animal.

O teor erótico é evidente, devido ao tratamento do diretor aos corpos dos pescadores. Muitas vezes, estes homens anônimos são vistos apenas pelo tronco e pernas, sem rosto. Em outros momentos, surge um plano próximo nos olhos inquisidores, encarando a câmera. A cada novo abraço, a câmera se aproxima num zoom lento e sensual.

Mas o que significa, afinal, esta atitude? Uma performance sobre a conjunção entre o homem e a natureza? A sugestão de uma morte mais humanizada e carinhosa? Repetindo-se sem se desenvolver, o conceito deixa as interpretações abertas demais, sem fornecer uma chave de leitura. Soa como experiência inconsequente, na qual a morte é oferecida como fetiche ao espectador.

Rei, de Alfeu França, adota um tom histórico ao retratar as viagens do monarca etíope Haile Selassie I pelo mundo, incluindo a sua passagem pelo Brasil. O material de arquivo deteriorado às vezes sugere uma incursão pela representação abstrata, que não é aprofundada. A narração e os letreiros finais indicam o possível recurso ao humor, que tampouco se desenvolve.

O problema do curta-metragem se encontra na indefinição de ponto de vista. O que interessa o cineasta em seu material de estudo? O que ele tem a oferecer pelo agenciamento das imagens? O cinema seria utilizado como mero resgate, lembrança? O conteúdo seria um fim em si mesmo? 

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