Altered Carbon: O futuro é uma tortura (Crítica da primeira temporada)
Os mártires do pós-apocalipse.

A nova série da Netflix, baseada no livro “Carbono Alterado”, de Richard K. Morgan, parte de uma premissa interessantíssima. Num futuro distópico, é possível trocar de corpo quando este perece por velhice ou doença. Com a consciência armazenada num cartucho e posicionada na nuca, basta transferir o objeto a outro corpo e seguir adiante. As possibilidades desta ideia são imensas: com as diferenças sociais, os mais ricos adquirem corpos jovens e trocam-nos sucessivas vezes, tornando-se quase imortais, enquanto os pobres se contentam com corpos frágeis e se sujeitam às “mortes reais”, ou seja, definitivas. Como o corpo é mero acessório – uma “capa”, diz-se na série, como para um telefone celular – um homem pode se tornar uma mulher, uma pessoa negra pode se transformar em branca e depois asiática, um europeu ganha as feições de um latino e assim por diante.
A história acena a uma potente leitura política e social dos tempos atuais – afinal, toda ficção científica usa o futuro para debater a contemporaneidade. No entanto, Altered Carbon não explora a fundo nenhuma dessas vertentes, pois sua preocupação é mais psicológica do que social. Através de uma dúzia de personagens traumatizados, depressivos ou vingativos, ele busca mostrar de que modo os percalços do presente (amores partidos, famílias desintegradas, amizades desfeitas) marcam uma pessoa a ponto de transformá-la. Todas as figuras da série dividem a alcunha de vítimas e vilões. Eles buscam redenção, mas também alguma forma de conexão com outros, seja em versão clonada, androide, virtual, simulada. Pelo visto, o futuro é triste e solitário.
O protagonista é Takeshi Kovacs, um mercenário cujas origens asiáticas e do leste europeu são escondidas no corpo do ator sueco Joel Kinnaman. Ele é o mártir principal, sofrendo ataques, torturas, vendo seus amores e familiares partirem repetidas vezes diante de seus olhos. Muitas vezes, “Tak” retorna e se sacrifica mais uma vez pelos poucos que restam, ou por um ideal de sociedade. Este mercenário aceita trabalhar para um milionário, encarregado de descobrir as circunstâncias da última morte do empregador. A contratação de Takeshi é pouco convincente, mas passemos: o objetivo é confrontar o protagonista a figuras ainda mais cruéis e insensíveis do que ele. Por isso o protagonista oferece o corpo nu e com “memória de combate” aos maus-tratos da tecnologia ao redor. Mesmo sem ser uma série religiosa, a ideia de penitência e redenção está muito próxima. É através do sofrimento e da admissão de culpa que os personagens progridem. O mundo futurista de Altered Carbon funciona como um amplo purgatório.
A trama é desenvolvida por Laeta Kalogridis, escritora especializada em ficção científica e fantasia, mas de trajetória bastante irregular. São delas as histórias de O Exterminador do Futuro – Gênesis, Desbravadores, Alexandre e Ilha do Medo, todos muito problemáticos. Os problemas se repetem nesta série. A roteirista cria uma série de personagens agressivos e…
Eleição nos EUA expõe reação a bilionários e data centers de IANotícias
Jogos de hoje (04/11/26): onde assistir futebol ao vivo e horários das…Notícias
Tempestades severas no Sul colocam estados em alerta nesta semanaNotícias
Queda de Learjet nos EUA: gelo e turbulência podem ser as causasNotícias