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The Leftovers sai de cena simples, bela e devastadora (Crítica da terceira temporada)

Você fez isso de novo, Damon Lindelof.

Adorocinema·
The Leftovers sai de cena simples, bela e devastadora (Crítica da terceira temporada)

The Leftovers tinha tudo para dar errado. A história daqueles que permanecem na Terra após o misterioso e repentino desaparecimento de 2% da população mundial. Parece trama de uma adaptação ruim de Stephen King. E, ainda assim, é — ou melhor, foi — um dos dramas mais atraentes da História.

Embora a premissa seja a adaptação de uma obra literária (“Deixados Para Trás”, de Tom Perrota), o seu gosto pelo mistério é herança de Lost. Damon Lindelof é o fator (ou melhor, o showrunner) em comum entre ambas, e utilizando sua cartilha de David Lynch, usa a pergunta como plataforma de lançamento para explorar o psicológico daqueles personagens que estão ali presos. O que significa eles estarem ali naquele lugar? Como os eventos recentes influenciam a forma como se relacionam? E, o mais importante, como eles lidam com a perda e a eterna pergunta sem resposta ao redor dos amigos e parentes que desapareceram?

A música de abertura da segunda temporada — que não por acaso retornou na series finale — fala exatamente da eterna pergunta sem resposta: “Todos perguntam de onde vieram […] e para onde vão quando tudo acabar […] Ninguém sabe ao certo então para mim dá na mesma. Acho que vou deixar o mistério apenas ser.”

Um dos grandes desafios ao tentar mapear o quebra-cabeças de uma série tão complexa e emocionalmente dura como The Leftovers é balancear a análise técnica e o aspecto amplamente sensorial que traz à tona. As três temporadas são construídas como uma grande cebola, que aos poucos vão retirando as camadas de personalidade de cada um dos protagonistas para mostrar suas formas cruas, impiedosas e — de forma complementar — despedaçadas.

É um contraponto, mas um dos mais bem pensados e sensíveis já vistos na televisão: em uma história que facilmente poderia se transformar em um mergulho investigativo nos porquês, na busca por respostas e numa interminável análise científica, em corredores brancos super iluminados e com homens de terno e gravata em enormes salas no alto de um prédio tentando desvendar para onde foram os 2% da Partida Repentina, The Leftovers opta justamente pelo oposto; o centro da trama é um delegado de uma pequena cidade do estado de Nova York, deprimido e com a família destruída. The Leftovers opta pelo caminho difícil ao criar uma grande e elaborada metáfora para tratar do mais universal dos assuntos: vida, morte, luto e todas as perguntas que nem mesmo Douglas Adams conseguiu responder.

A jornada de Kevin Garvey (Justin Theroux) poderia ser a de qualquer um de nós, qualquer um que já tenha perdido um parente ou um amigo e sentido aquele imenso vazio que jamais será preenchido; ou que já tenha se perguntado se algum dia vai reencontrar aquela pessoa que se foi; ou, em verdade, qualquer pessoa que já tenha se feito alguma pergunta que se encaixe no âmbito metafísico. A trajetória deste personagem foi delicadamente se mostrando cada vez mais como uma grande busca que, no fim, não tinha o que encontrar — e inconscientemente, assim como nós,…

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